O jornal Estado de S. Paulo publicou, nesta segunda-feira, 2 de novembro, uma interessante notícia. O doutorando Luis Fernando Marques Dorvillé, ao procurar responder à pergunta que dá título a este artigo, passou 8 anos entrevistando alunos para sua tese de doutorado, pela Universidade Federal Fluminense. Afinal, ele não consegue entender como alguém pode ensinar ciências sem acreditar na teoria de Darwin.
Ele distribuiu questionários entre os alunos de todas as religiões. Diante de questões como: “Comente a frase: alguns seres vivos têm parentesco maior entre si do que com outros” descobriu que a desconfiança sobre teoria da evolução chega a 70% entre os protestantes, 30% dos católicos e 20% dos espíritas e umbandistas (1).
A reportagem fala da indignação do pesquisador ante o embate dos alunos, e da acomodação e conciliação dos estudantes frente ao que aprendem. É possível ensinar ciências sem acreditar em Darwin?
Alguns relatos são impressionantes. Um dos alunos, no calor da discussão, disse: “Minha avó não é macaca. Então foi Deus quem criou o homem.” Dói só de ouvir. Outro, mais perturbador ainda, disse: “Eu sei de tudo isso que você está me falando, mas prefiro não pensar muito.” Ainda há o relato de Aline Malafaia, que, para a surpresa de qualquer um que leia a Bíblia e estude Biologia, diz que os 7 dias da criação podem ter sido 7 milhões de anos, nos quais a evolução ocorreu. Absurdo evolucionista, porque a evolução da vida teria levado bilhões (não milhões de anos); absurdo criacionista, porque um Deus que faz milagres diz que criou em sete dias literais, mas ela diz que não; absurdo hermenêutico, porque o que ela disse arruína a interpretação sadia do Livro, e desestabiliza (talvez causando desmoronamento) as bases da fé cristã. Será que ela ensinaria isso na Escola Dominical, já que é sua fé?
Se Darwin não quis conciliar as coisas, por que eu vou querer?
O próprio Darwin não aceitava a conciliação entre o Gênesis e a sua teoria. Para ele, não era possível que um Deus de amor criasse um mecanismo cruel como a seleção natural. Ele evitou o quanto pode que as pessoas conciliassem a teoria da evolução e o livro de Gênesis. E estava certo. Não dá mesmo. Ou se crê na teoria da evolução, ou se crê no relato de Gênesis. Veja bem, estou usando o conceito de fé para ambos os casos, porque é disso que se trata a coisa toda.
Se é assim, o que nós, professores dedicados de ciência, deveríamos fazer? Como um criacionista pode ensinar evolução?
Passei grande parte de minha graduação fugindo dessa pergunta. Até que entendi que a evolução é a teoria mais aceita entre os cientistas, hoje. Bem, pode ser a mais aceita, mas não é unânime, e nem é a única. Ela tem verdadeiros rombos inexplicáveis, e faltam-lhe muitos pedações e pedacinhos. Mas é importante considerar o que deve ser ensinado independente de ensinar transformismo de táxons.
Deve-se ensinar seleção natural. É comprovada. Deve-se ensinar especiação. Deve-se ensinar isolamentos geográficos, reprodutivos. Deve-se ensinar mutações e DNA. Deve-se ensinar taxonomia. Deve-se ensinar geologia. Isso não é teoria da evolução. Isso é Biologia.
Um glossário básico
Teoria da Evolução é o nome que damos à fé que liga todos esses fatos da biologia à crença de que todos os animais têm um ancestral comum, em uma célula “simples” que surgiu a uns 3 bilhões de anos atrás, fruto do acaso cego que gerou a vida, que se desenvolveu e aumentou em complexidade por ação das mutações e seleção natural, entre outros processos. É o paradigma dominante hoje, e fazem pesquisas com ele.
Por outro lado, Teoria do Design Inteligente (TDI) é o nome que damos à fé que liga todos esses fatos da biologia à crença de que todo o universo apresenta evidências sólidas de projeto, e que, portanto, tem um Designer Inteligente desconhecido que o projetou. É um paradigma emergente hoje, e fazem pesquisas com ele.
E Criacionismo é o nome que damos à fé que liga esses fatos da biologia à crença de que tudo isso tem um Designer Inteligente, que pode ser conhecido, e revela-se na Bíblia, sendo o Deus judaico-cristão que chamamos de “Pai nosso que está nos céus”. É um paradigma resistente até hoje, e fazem pesquisas com ele.
Minha revolta é a seguinte…
A sociedade recusa-se a aceitar que a teoria da evolução é sobretudo questão de fé. Portanto, não deve ser ensinada como fato científico. Contudo, para eles, devemos ensinar aos alunos que os peixes evoluíram para anfíbios. Legal. Mas o que faremos quando os alunos perguntarem: “Professor, como eu posso ter certeza que as coisas aconteceram desse jeito?” Ah, já sei! Vamos responder assim, né? “Essa é a posição dominante entre os cientistas.” Em outras palavras: “Você tem que acreditar no que a maioria das pessoas acredita, mesmo sem evidências sólidas, ou explicações adequadas.”
Mas abram-se os livros didáticos, e ver-se-á que a evolução está lá sendo ensinada como fato absoluto. As evidências são arrumadas e organizadas para apoiarem esse paradigma. Não há nem uma palavra sobre a TDI, nem uma explicação sobre o que é criacionismo, senão escárneo. Desse jeito, é melhor chamarmos nossas aulas de ciências de catecismo ao ateísmo. Combina mais com fé que com ciência.
E os estudantes (universitários) cristãos, que poderiam se atualizar, estudar mais e tentar propor uma mudança (que é possível), acomodam-se e deixam-se calar, negando sua fé, moldando-a aos ensinos mutáveis da pseudociência, com o intuito de ter sucesso profissional (leia-se, no caso de alguns, vender-se por dinheiro). Que vergonha para aqueles que se dizem cristãos e protestantes, pois negam a própria essência do protestantismo e do cristianismo: ter a Bíblia como Palavra de Deus, infalível e inerrante. Preferem acreditar no que as últimas pesquisas dizem, e reinterpretar a Bíblia ao seu gosto, que acreditar no que Deus já disse há tento tempo atrás.
Respondendo a questão
É perfeitamente possível ser professor de Ciências sem acreditar em tudo o que Charles Darwin disse. Isso porque o que o professor de ciências precisa ensinar é Ciências Naturais – Física, Química, Biologia. Mas também deveria poder ensinar evidências que os criacionistas e designers descobrem e propõem, não só as que os evolucionistas propõem (muitas delas desatualizadas e já respondidas, embora as respostas não estejam lá no livro).
Mas podem acreditar no que quiserem. O que não é possível é um cristão sem o Gênesis, sem a Bíblia. Esse tipo de cristão ainda não evoluiu, nem pode evoluir.
Referências
(1) VIEIRA, Márcia. Pesquisa mostra conflito de biólogos evangélicos. O Estado de S. Paulo, p. A14, 2 nov 2009. Disponível em : <http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20091102/not_imp459863,0.php>. Acesso em 06 nov 2009.

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OBS: Este comentário também foi publicado no artigo “Biomimética: ciência de acasos ou de projetos?”
Caro Rembrandt,
Obrigado pela visita e participação.
Vi que você leu dois artigos meus, pelo que agradeço. O fato de você comentar sobre os dois me anima a escrever porque alguém está lendo! E vou responder suas questões.
Você disse que nunca tomou conhecimento de argumentações que pusessem em xeque a Evolução. Pois é… Elas existem, e não são apenas de cristãos. Muitas pessoas, inclusive ateus, têm questionado o evolucionismo, porque ele não explica satisfatoriamente a origem e diversidade da vida na Terra. Exemplo disso é o blog “Desafiando a Nomeklatura Científica“, do Prof. Enézio de Almeida Filho, que não é cristão, até onde eu sei, mas não acredita em Darwin. Michael Behe, Paul Nelson, John Lenoxx, o Núcleo Brasileiro de Design Inteligente, os criacionistas do Institute for Creation Research, do Answers in Genesis e do Creation Ministries International e muitos outros têm se posicionado contra a evolução, que é o paradigma dominante atualmente. E têm fornecido explicações plausíveis e possíveis, muitas vezes com base em experimentação científica.
Os fósseis, ao contrário do que se acha, não são evidências conclusivas de que os seres têm evoluído. A interpretação deles muda com bastante frequência. Alguns fósseis, inclusive, são evidência de que o modelo de datação que convencionalmente se usa está errado. (Veja o artigo “O Verdadeiro ‘Jurassic Park’?“, aqui neste blog.)
De fato, precisamos de novas ideias, e elas já existem: são o Criacionismo (que é bem diferente daquele que estamos costumados a ver nos livros escolares de ciências) e o Design Inteligente, cuja obra seminal, que aliás é boa leitura para as férias, é “A Caixa Preta de Darwin”, de Michael Behe. O problema é que poucos estão dispostos a considerá-las.
Quero deixar claro uma coisa: não defendo que o Gênesis deva ser livro-texto de ciências. Isso é absurdo porque: 1. Não é livro científico. 2. É um livro histórico. 3. Não fala de Física, Química e Biologia. Os dois primeiros capítulos de Gênesis contam a história da origem do universo e da vida. Este assunto é matéria de fé, como são matéria de fé as teorias de Oparin e Francis Crick. Você precisa acreditar que as moléculas se auto-organizaram em coacervatos, e que daí veio a primeira célula, porque ninguém estava lá para ver, e o cenário não pode ser reproduzido. Como também precisa acreditar que Gênesis conta a verdade sobre a criação. O que defendo, então, é uma igualdade de exposição quanto ao assunto “origem da vida” e “ancestralidade comum”. Estamos ensinando as crianças a serem descrentes na Bíblia, e em todos os outros livros religiosos, não a pensarem cientificamente quando falamos deste assunto. Para mim, é uma violação religiosa (poderia chamar estupro, pois não está nem aí para a vontade do aluno), já que dizemos a mentes pueris que o que aprendem em suas igrejas, sinagogas e mesquitas está errado, e não devem crer nisso. Quanto ao cristianismo (posso dizer porque sou cristão), esse tipo de coisa pode desestabilizar a fé de uma criança, e ter resultados desastrosos.
Concordo plenamente com você a respeito do motivo por quê Deus usou linguagem simples em Gênesis 1 e 2. Porém, é ir além do texto dizer que Deus está por trás da teoria do Big Bang (que também não é acordo entre os cientistas), e que podemos ver evolução nas entrelinhas. É impossível ver isso, porque as duas coisas são totalmente incompatíveis. Você viu no texto a história de uma professora de ciências, evangélica, que diz que os 7 dias da criação poderiam ser 7 milhões de anos. Isso é absurdo porque a Terra, de acordo com as explicações convencionais, teria 4,5 bilhões de anos, e a vida, uns 3,5 bilhões no máximo. É um bilhão de diferença só para a origem da vida, o que é tempo pra dedeu. É ridículo fazer isso. A Bíblia diz o que ela quer dizer, e deve ser interpretada com base nela mesma. Isso é uma regra fundamental de interpretação bíblica.
Quem está por trás da origem da vida? Cientificamente, podemos dizer que é um Ser Inteligente. Quem é este ser? Ninguém sabe. A resposta é dada pela fé. Uns preferem crer que foi um alienígena inter-dimensional super inteligente. Outros (como eu) ficam com o Deus da Bíblia.
A conciliação das teorias não é possível. Até porque não podemos basear nosso sistema de fé nas teorias científicas ou pseudo-científicas, porque mudam bastante. Para os cristãos vale até como conselho ou repreensão: não misturar o texto sagrado com as teorias deste mundo. Como disse Jesus: “O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão de passar.” (Mateus 24:35).
Abraço e Deus abrençoe,
Daniel.
Se aceitarmos a teoria da Evolução, é imprescindível uma releitura do Genesis. Eu nunca tomei conhecimento de argumentações que pusessem em xeque a Evolução. Pelo contrário, parece que os fósseis são a grande evidência. Minha teoria para a reinterpretação do Genesis é que Deus usou uma linguagem simples porque: Ele queria ressaltar aspectos humanos, não científicos; Ele queria deixar ao Homem a tarefa de explorar e descobrir o mundo como ele é; seria linguagem pesadíssima para a época uma aula de ciências.