Criacionismo nas escolas: Ensino Religioso ou Ciências?

maca_livroEm matéria publicada em 30 de novembro, deste ano do Senhor de 2008, Marcelo Leite, colunista da Folha de S. Paulo, em seu blog “Ciência em Dia” (1) fala sobre a iniciativa, do Colégio Presbiteriano Mackenzie, de ensinar criacionismo e evolucionismo ao mesmo tempo, no Ensino Fundamental, tanto nas aulas de Ensino Religioso como nas de Ciências.

Como devem se lembrar, no Rio de Janeiro, a governadora Rosinha Mateus, há alguns anos, “mandou” que o Estado carioca fizesse quase a mesma coisa nas escolas públicas. A diferença é que o criacionismo deveria ser ensinado somente nas aulas de religião.

Ora, essa notícia merece destaque. Porque, enquanto que Rosinha Mateus foi severamente criticada por evolucionistas (porque a criação não deve ser mencionada na escola, senão com desdém) e criacionistas (porque teorias sobre a origem do universo e da biologia devem ser ensinada em aulas de Ciências!), o Instituto Presbiteriano Mackenzie merece ser aplaudido, por inserir o criacionismo tanto no currículo de Ciências como no de Ensino Religioso. Parece contraditório, mas não é. Vejamos por quê.

1. Se alguém se propõe a explicar a origem do universo e da vida humana, se propõe a explicar algo que interessa, e muito, a todos nós, independentemente do credo religioso.

2. Se você é religioso, precisa saber qual é a explicação da sua religião para isso, já que a origem de tudo está relacionada aos problemas do presente (no caso específico do Cristianismo).

O criacionismo não necessariamente é cristão ou, como se diz, judaico-cristão. Há muçulmanos criacionistas, judeus criacionistas, cristãos criacionistas… bem, há muitas religiões no mundo. A esmagadora maioria tem um relato de criação por um Ser Superior. É claro que isso não pode ficar de fora do Ensino Religioso.

Portanto, é simplesmente necessário falar de criacionismo no Ensino Religioso. Mas e nas aulas de Ciências? Agora as coisas se complicam, porque entram em pauta questões como “em Ciência as explicações devem ser naturais”; “a autoridade bíblica é questionável”; “cientificamente, não podemos afirmar que Jesus é Deus”; “fé e ciência não podem andar juntas”. Cada uma dessas questões deve ser discutida, porém, as questões cruciais do cristianismo, todos sabem, não cederão, já que baseiam-se na autoridade bíblica como inspirada por Deus. E isso se deduz da fé, que não precisa de provas. Mas também não pode ficar de fora do ensino de Ciências, só porque contraria a “mais aceita” (e deificada) teoria da origem da vida: a teoria da evolução, desde que (e isso é importante) se proponha a explicar cientificamente as origens.

O Estado e a Igreja

O Mackenzie é um colégio confessional. E, como confessional, ensina o que está incluso em sua filosofia religiosa. Contudo, o que se deve ensinar nas escolas públicas? Com certeza, precisamos lembrar que existem alunos de diversas crenças. O professor não prega na sala de aula, nem tenta doutrinar seus alunos. Isso seria absolutamente anti-ético porque o professor está em uma posição influenciadora. Desse modo, seria um comportamento jesuíta pregar para os alunos e tentar convencê-los de que o Cristianismo é a verdade de Deus, ou que a Evolução é a verdade da ciência e a única que merece crédito. (2)

O que o Estado deve ensinar, então?

Vejamos a nova Proposta Curricular do Estado de São Paulo para o Ensino de Biologia (3), introduzida neste ano na rede pública de ensino. É interessante notar que a proposta abre um espaço excelente, ao considerar que a evolução é uma das teorias explicativas, que procura responder às questões de como tantas mudanças aconteceram nos seres vivos, comparando-se os fósseis com os organismos atuais (p. 44 (4)). Além disso, o texto da Proposta reconhece, na p. 34, que a origem e o sentido do universo são conjecturas, preocupações filosóficas, além de científicas. Evidentemente, a proposta (como esperaríamos) é evolucionista, porém, mais importante que isso, abre o espaço para o diálogo na sala de aula. Reconhece que o tema das origens tem explicações de natureza mitológica, religiosa e científica, e que os alunos poderão confrontar diferentes explicações sobre o tema (p. 46-47). Isso é um grande avanço, porque o que interessa é que os alunos saibam que tem gente indo contra a maré e dizendo que há explicações melhores. E, se alguém diz isso, merece, pelo menos, ser ouvido. É lógico.

Deixamos para reflexão a ótima análise de Charbel Niño El-Hani, bacharel em ciências biológicas, mestre e doutor em educação, publicada na Folha de S. Paulo em 6 de dezembro de 2008 sobre isso.

(…) de um lado, professores de ciências sempre devem ter em conta a diversidade das visões de mundo dos estudantes em suas aulas. Isso significa que deve haver, sim, espaço para a discussão de diferentes perspectivas sobre fenômenos que a ciência explica, incluindo o criacionismo, desde que representado na sala de aula, e não só na perspectiva cristã, mas em todas as perspectivas presentes entre os estudantes.

Mas, de outro lado, os professores nunca devem perder de vista que o objetivo do ensino de ciências é, como deveria ser óbvio, ensinar o conhecimento científico. Assim, é necessário, sim, que os professores estimulem os estudantes para que compreendam as idéias científicas – e tal como elas se apresentam no conhecimento científico atualmente aceito.

Seria certamente um rompimento do contrato didático entre professores, alunos, pais e administradores se, nas aulas de ciências, não se tivesse como objetivo ensinar ciências, mas idéias oriundas de diferentes tradições culturais. Nunca é demais repetir: professores de ciência estão ali para ensinar ciência! (…)

(…) o professor de ciências deve explorar essas vozes discordantes para discutir as variadas maneiras como os seres humanos compreendem e explicam o mundo e, mais, a importância de distinguir entre diversos discursos humanos, fundados em pressupostos distintos sobre o que constitui o mundo (pressupostos ontológicos) e sobre o que constitui conhecimento válido (pressupostos epistemológicos). (5)

El-Hani defende que o conhecimento científico deve ser ensinado, porque o professor está ali para ensinar Ciências. Perfeito! É isso o que os criacionistas querem e devem buscar. Por isso, ficamos felizes! O criacionismo tem como base o conhecimento científico válido, obtido através de pesquisas. O pressuposto é que é religioso. Mas o pressuposto evolucionista também não é? É ateu, portanto, religioso.

REFERÊNCIAS

(1) LEITE, Marcelo. Criacionismo no Mackenzie. Disponível em: <http://http://cienciaemdia.folha.blog.uol.com.br/>. Acesso em 3 dez 2008.

(2) É claro que não estou desencorajando o evangelismo na escola. Mas creio que o professor tem outras formas de pregar o evangelho para seus alunos; principalmente sendo um cristão dedicado, um professor estudioso e trabalhador, um amigo de seus alunos.

(3) PROPOSTA CURRICULAR DO ESTADO DE SÃO PAULO: Biologia. Secretaria de Educação do Estado, 2008. Disponível em: <http://www.rededosaber.sp.gov.br/contents/SIGS-CURSO/sigsc/upload/br/site_25/File/Prop_BIO_COMP_red_md_20_03.pdf>. Acesso em 16 dez. 2008. 

(4) Não reproduziremos o texto aqui, porque o arquivo parece proibir a reprodução parcial, inclusive as citações. Mas pode-se baixar gratuitamente o arquivo no link da referência (3).

(5) EL-HANI, Charbel Niño. Educação e discurso científico. Folha de S. Paulo, São Paulo, 6 dez. 2008. Tendências/Debates, p. A3.

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19 Respostas

  1. Caro girsaum,

    Obrigado pela visita e participação.

    Você me perguntou porque o criacionismo não é ciência. E vou responder com base no seu texto e nas suas palavras.

    “Primeiro, temos que caracterizar o que é ciência. Ciência é, basicamente, a aquisição de conhecimento através da utilização do método científico.

    O método científico consiste na união de determinados elementos para que se garanta a produção de um novo conhecimento. Para que se produza o conhecimento científico deve-se, então, seguir os seguintes passos, na determinada ordem: observar (definir o problema), recolher dados, propor uma hipótese, realizar uma experiência controlada para testar a validade da hipótese (princípio da falseabilidade), analisar os resultados, interpretar os dados e tirar conclusões, o que serve para a formulação de novas hipóteses.

    Toda produção científica deve-se iniciar com a observação do fenômeno e, sucedendo a essa observação, deve-se recolher dados sobre ela para então propor uma hipótese. Depois vem o princípio da falseabilidade, que significa que a hipótese deve poder ser refutada, testada. Por fim deve-se analisar os resultados desse teste/contestação, para se chegar a conclusões através da interpretação dos dados adquiridos.”

    Ciência é isso mesmo. Se não obedecer a esses critérios, que não chegue nem perto da definição porque não pode. Você só esqueceu de incluir um fator indispensável: o paradigma. (Para esclarecer aos leitores, podemos dizer que o paradigma é um tipo de cola, que liga tudo isso que obtemos na definição do girsaum. Ele é uma explicação coerente que dá substância à teoria que tenta esclarecer aqueles fenômenos observados. Sem o paradigma, o trabalho científico é impossível, conforme Thomas Kuhn, em “A estrutura das Revoluções Científicas”.) O paradigma é o que permite que consigamos bolsas de pesquisa, títulos acadêmicos e posição respeitável na sociedade, além de dinheiro, evidentemente. Quando o assunto é origem da vida e da biodiversidade, o paradigma mais aceito hoje é o evolucionista.

    Responda-me girsaum, quando o evolucionismo obedece os critérios que você colocou? (Sei que você não gosta de quando os criacionistas usam este argumento, e embora não tenha só ele, preciso dele para responder à sua pergunta.) Você postou algumas “evidências irrefutáveis” em seu texto, como a “evolução” dos coelhos e bactérias. Porém, esses seus exemplos não mostram evolução alguma, exceto microevolução, que é uma variação dentro de certos limites taxonômicos, o que o criacionismo aceita muito bem, como aceita muito bem a seleção natural. Ela é parte importantíssima na teoria criacionista.

    Contudo, você disse que o criacionismo não respeita o princípio da falseabilidade. Talvez você não saiba, mas o criacionismo já sofreu, internamente, muitas mudanças justamente por causa deste princípio. O que não muda é quanto à base da teoria. Igualzinho ao evolucionismo. É possível dizer que as duas teorias estão em pé de igualdade. Em última análise, segundo essa sua definição, não seriam ciência. Por que quando se trata de Deus (ou de sua ausência) nem criacionistas nem evolucionistas abrem mão de sua fé.

    A ausência de Deus em uma teoria não é, de forma alguma, fundamental para a caraterização da ciência. Naturalismo filosófico e científico são completamente diferentes. Criacionistas são defensores do naturalismo científico. O filosófico é que é problema, pois a evidência da natureza aponta sim para um Inteligência que, cientificamente, fica demonstrada nas próprias evidências naturais. (Aquelas que você citou sobre a complexidade, que não foram refutadas coisa nenhuma, mais outras. O que você fez foi analisá-las à luz do paradigma evolucionista, que acredita que uma explicação ocelo-olho é suficiente, por analisar o fenômeno à luz da semelhança morfológico-funcional. Ou seja, não convence). A ciência, como a temos atualmente, só não pode determinar a identidade do Designer, pois quem o faz é a Filosofia ou Teologia. Para mim, a Teologia. “Para mim” porque eu, como a maioria dos criacionistas hoje, acredito que o Deus da Bíblia deu origem ao universo. De novo, estamos quites. Você acredita que o acaso fez isso, ou seja, no lugar de Deus, inexplicável, você colocou o acaso, também (mas não igualmente) inexplicável.

    Gostaria de comentar outra coisa que vi em seu texto:

    “Já o evolucionismo tem raízes científicas fortes, ele nasceu da ciência pura, e não do sobrenatural, ele está livre das amarras da ignorância e da malícia para fazer valer seu argumento. Essa situação já mostra a colossal fragilidade do argumento criacionista.”

    Essas suas palavras não tem o menor nexo, girsaum. São mais uma profissão de fé do que uma descrição da realidade. Darwin, na primeira edição de “A origem das espécies” defendia que Deus havia criado o processo todo, depois, mudou de opinião. Seu livro tem como influências diretas a aversão da sociedade (contemporânea a ele) pelos milagres, as dificuldades em explicar a morte e o sofrimento no mundo (três de seus filhos morreram enquanto escrevia o livro), e o naturalismo filosófico. Vários evolucionistas apontam as fragilidades do evolucionismo. Por exemplo, Francis Crick, co-ganhador do Nobel pela descoberta da estrutura do DNA, e o próprio Darwin, com seu medo paleontológico de que os fósseis que precisava não fossem descobertos. E esse lance de “amarras da ignorância e da malícia” não colam mais, cara. O criacionismo tem vários pesquisadores, com títulos de Ph.D. para cima, e pesquisas sendo feitas no mundo todo.

    Essa é minha resposta, mas não o final do meu comentário. Leia o resto, por favor.

    Aguardo sua resposta, girsaum.

    Abraço e Deus abençoe,

    Daniel.

    PS1: Não existe esse negócio de “neo-criacionismo”. Existem os criacionistas e os defensores do Design Inteligente, muitos dos quais são ateus. São duas teorias que podem ser intercambiáveis, mas têm diferenças importantes. Não confunda as coisas.

    PS2:

    “O criacionismo está, infelizmente, muito em pauta nos dias atuais, principalmente pela força (lê-se montanhas de dinheiros de fiéis fanáticos) de algumas igrejas evangélicas. O que elas querem? Querem que o criacionismo seja ensinado nas escolas nas aulas de ciências.”

    Que base sólida você tem para acusar os criacionistas de defenderem a teoria por dinheiro? Esse ataque ad hominem, além de caluniador, é inútil porque não é verdadeiro. Primeiro, porque nem todos os evangélicos são ladrões de dízimos e ofertas. Essa generalização é infantil. Segundo, porque criacionistas querem que a teoria criacionista seja ensinada nas escolas públicas porque é a melhor explicação para os fenômenos que observamos. Não tem nada a ver com a doutrina dos dízimos, que varia entre os próprios cristãos (alguns defendem que dízimo não existe).

  2. [...] Recentes girsaum em Criacionismo nas escolas: Ensi…Daniel Ruy Pereira em Deus criou vida em outros plan…Daniel Ruy Pereira em O colapso do [...]

  3. Postei aqui o porquê do criacionismo não ser ciência para discussão

    http://worldevolution.wordpress.com/2009/11/24/criacionismo-nao-e-ciencia/

    Abraços

  4. Parte 1 – Resposta do Charbel

    Daniel, agora vai a parte 1 do email.
    Eu já reclamei a ele do “Fico desde logo agradecido”. É cada uma. Tão formal justo comigo…
    Nem parece que me conhece…
    Lembrei a ele uma frase que ele sempre usa comigo “se não me custa nada por que não fazer?”

    Aprendi e estou fazendo o mesmo.

    Não me custa e acho que vcs dois estão gostando.

    bom, agora fica com o texto dele.

    bjs

    Mônica,
    Vc envia esta resposta abaixo a Daniel. Fico desde logo agradecido.

    Abs
    Charbel

    —-

    Daniel,

    Escrevo com pouco tempo, logo, serei bem sucinto. Penso que existe uma contradição interna em seu argumento. Anteriormente, inquiriu por que não se poderia formular hipóteses naturalistas mencionando Deus, respondi então que Deus não poderia ser qualificado como entidade natural, que isso seria inclusive possível heresia, aí vc disse que não estava afirmando que Deus seria natural. Ora, mas era isso que vc estava apontando em primeiro lugar, ao reclamar por hipóteses naturalistas sobre Deus. Parece-me uma contradição evidente. E penso que é algo profundo, mostra que seus argumentos não se beneficiam da tentativa de misturar dois domínios distintos do discurso, científico, de um lado, e um discurso religioso cristão, de outro. Reitero meu argumento central, sem negar valor de uma ou de outra forma de conhecimento, é melhor observar a demarcação entre os dois discursos.

    Você agora se pergunta por que a comunidade cientifica fica “cravada” no discurso naturalista. Ao meu ver, essa questão mostra a raiz do problema, em termos de compreensão da natureza do conhecimento e da ciência, ou seja, em termos epistemológicos. Um discurso, como cientista, é discurso de uma comunidade intersubjetiva, que faz acordos, assume pressupostos, constrói discursos sobre estes pressupostos. (Aliás, da minha perspectiva, não é só o discurso cientifico que é assim, mas todo discurso social humano, incluindo discursos religiosos). Construir argumentos dentro do discurso que negam os pressupostos assumidos é contradição. Então, por que a comunidade cientifica mantém pressupostos naturalistas, de caráter metodológico (naturalismo metafísico é outra coisa, da ordem das crenças sobre o mundo, e desnecessário para a construção do conhecimento científico, ainda que cientistas individuais possam, ou não, aderir a ele)? Porque em certo momento histórico, percebeu-se (1) que o requisito metodológico empirista, ao demandar que as afirmações sobre o mundo são testáveis, não permitia a menção a fatores sobrenaturais, ou não naturais, nas explicações, porque afirmações sobre eles (p. ex., sobre Deus) não são testáveis. Ou seja, (2) que do requisito metodológico empirista segue compromisso ontológico naturalista. O discurso científico, então, naturalizou-se, entre meados e final do século XIX, ou seja, independentemente das crenças pessoais dos cientistas, ao construírem discursos científicos, não mencionam entidades que não sejam naturais, porque isso leva à perda de testabilidade de tais afirmações. Logo, uma vez naturalizado o discurso cientifico, não se pode incluir Deus, designer inteligente etc. dentro desse discurso, porque seria contradizer os pressupostos, e, logo, construir discursos inconsistentes. Não se trata de ser “cravado” em idéias, trata-se de ser coerente logicamente.

  5. Oi Daniel,

    Vou olhar sua indicação. Não prometo agora, pq certas coisas tem que ser feitas com calma, e eu estou tentando terminar as correções da minha dissertação de mestrado. Mas prometo olhar em julho – qdo espero ter férias (sim, estou trabalhando dois turnos).

    Bom, Charbel escreveu de novo – e é enorme. Vou colocar novamente por partes, vamos ver o que eu consigo fazer.
    um abraço

    Parte 2

    Claro, a comunidade cientifica poderia, como grupo social, abandonar como um todo o discurso cientifico. Mas para que fazer isso, se (3) a opção por um discurso naturalista é legítimo, tão legítimo quanto optar por um discurso não naturalista (diferente do que muitos religiosos dão a entender, não há nada proibido, nada imoral, nada condenável em optar por um discurso naturalista…) e (4) a ciência tem sido muito bem sucedida (como se pode aprender estudando os avanços da ciência ao longo dos últimos dois séculos) na compreensão de fenômenos naturais por meio de explicações naturais? Nada há de ilegítimo em manter a opção que, socialmente, a comunidade cientifica tem mantido. Não é mero dogma, não é mero estar “cravado” em pressupostos. Repito: É a opção por um discurso legítimo e consistente. Note, por fim, que há uma dupla demarcação no que afirmei: de um lado, do que a ciência explica, ela explica fenômenos naturais, sobre outros fenômenos nada tem a dizer, por isso, a ciência é agnóstica em relação à existência de Deus; de outro, qual modo de explicar a ciência usa, ela explica fenômenos naturais com base em outros fenômenos naturais. Note, ainda, que, dessa maneira, está preservado um domínio de validade da religião, no domínio da explicação de fenômenos não naturais, que não estão no domínio da ciência. Agora, se a religião quiser explicar fenômenos naturais, como pretendem os criacionistas científicos, ela tem de disputar espaço com as explicações naturalistas científicos. E aqui, para mim, basta estar bem informado sobre as ciências, e ter uma epistemologia consistente: a ciência é largamente mais bem sucedida, nenhuma forma de conhecimento que a humanidade produziu foi tão bem sucedida quanto a ciência na explicação de fenômenos naturais. Há pontos em aberto? Claro que há. O conhecimento científico é conjectural, mutável e isso não é uma fragilidade dela, é fonte de sua força. É forte o conhecimento que reconhece seus limites, sua falibilidade, algo que o conhecimento religioso não reconhece praticamente nunca…. Em evolução, então, é impressionante o que aprendemos ao longo das últimas décadas, sabemos cada vez mais, e temos aprendido muito sobre problemas difíceis, como a origem das formas, através da genética de populações, da biologia evolutiva do desenvolvimento (evo-devo), do equilíbrio pontuado. E, sinceramente, nos argumentos dos criacionistas científicos, não vejo mais do que tergiversações e falta de informação.

    Por fim, se quiser ler Hacking, o livro chave é Representing and Intervening. Outro interessante, mais recente, é The Social Construction of What?

    Charbel El-Hani

  6. Olá, Mônica!

    Sem muito bem-vinda novamente. É um prazer tê-la aqui, e não fique incomodada. É um prazer para mim receber os comentários do Prof. Charbel. Até hoje, foi uma das melhores coisas que aconteceu neste blog. Estou honrado e feliz com a oportunidade de conversar com ele. Te devo uma, Mônica.

    Muito obrigado também pela indicação. Já adicionei aos meus favoritos. Mas também vou fazer uma sugestão: no site do Mackenzie estão disponíveis as palestras do II Simpósio Internacional Darwinismo Hoje. Lá há representantes do Criacionismo, Evolucionismo e Design Inteligente. Dê uma olhada. Dois dos palestrantes são John Lenoxx, da Universidade de Oxford, e Paul Nelson do Instituto Discovery. Ambos representantes da TDI. As suas palestras valem muito a pena.

    Grande abraço e Deus abençoe,

    Daniel.

  7. Oi Daniel,

    Agora sou eu mesma.

    Espero que não se incomode de eu postar as mensagens do Charbel. Ele fica impaciente qdo não consegue enviar algo. Aí, eu que tenho mais tempo faço.

    Agora eu acabei de enviar para ele sua resposta.

    Qdo ele responder – e eu nunca vi ele responder TANTA coisa em tão pouco tempo – posto aqui. Já vi que ele não vai postar direto.

    Se vc quer ver debates sobre o tema que tenham maior embasamento científico sugiro entrar no grupo de discussão da Sbenbio.
    http://br.groups.yahoo.com/group/sbenbio/

    Lá vc vai ver debates de alto nível – os debatedores dos dois lados são MUITO bons. A gente aprende muito.

    abraços

  8. Prof. Charbel,

    Essa conversa está sendo ótima para mim. Agradeço por dispor do seu tempo para isso, Prof. Preciso deixar claras algumas coisas, antes que cause confusão.

    1. Não ensino criacionismo aos meus alunos. Atenho-me à proposta curricular e ensino o convencional. Afinal, não sou maluco, pois ainda não tenho preparo suficiente para isso. Mas sempre digo aos alunos, quando posso, que há explicações alternativas àquelas padronizadas.
    2. Isso não invalida o que defendo: o criacionismo deve ser ensinado, mas por professores preparados.
    3. Não defendo que Deus é uma entidade natural. Nem me preocupo com isso. Como o Sr. mesmo disse, é um absurdo e heresia. A Bíblia ensina que Deus é espírito (Deuteronômio 4 e João 4, por exemplo). E Deus é uma Pessoa.
    4. Gostaria de saber, Prof. Charbel, quais são as confusões epistemológicas em meu argumento, pois em minha mente tudo está muito claro.

    Eu concordo com o Sr. a respeito da idade da Terra. As evidências apontam seriamente para os 4,5 bilhões de anos, mas o que fazer com as evidências contrárias? Elas são simplesmente ignoradas por quê? Porque não se encaixam no modelo convencional? É claro que ciência se faz de acordo com o paradigma predominante, como ensina Kuhn (e este estou lendo e mastigando há algum tempo). Afinal, sem nos atermos a um paradigma, a um conjunto modelar, como faremos ciência? A comunidade precisa estar de acordo para trabalhar. Mas, Prof., podemos dizer que uma evidência até é insuficiente, duas talvez, mas quando elas começam a aparecer aos montes, diante dos nossos olhos, começamos a questionar. Senão, fazemos vista-grossa!

    O criacionismo tem explicado essas evidências. Ele não se preocupa apenas em apontar o Criador e falar Dele. Os tecidos moles preservados em fósseis, mais as duas evidências que citei na outra resposta já são três contrárias à idade convencional da Terra. Apenas por ler os textos criacionistas vemos que há muitas outras evidências contrárias à escala de tempo convencional. O que faremos com elas? Ignoramo-las? Oh, sim… Vamos ignorá-las por não serem aceitas pela comunidade científica convencional e apoiarem a teoria criacionista de uma Terra jovem… Esse posicionamento é político. Essa é uma parte importante do criacionismo. Agora, o que há de religioso aqui nesse exemplo da idade da Terra? Absolutamente nada. É um discussão naturalista sobre quantos aniversários a Terra fez.

    “Ah, mas os criacionistas só acreditam que a Terra é jovem porque a Bíblia diz.”
    Ué, os evolucionistas não acreditam que a terra é antiga porque alguém disse?
    “Mas nós nos baseamos em hipóteses e evidências!”
    E nós também! A Bíblia não tem escrito em lugar nenhum que a Terra tem de 6000 a 10000 anos. Essas datas são oriundas de hipóteses e evidências que apontam que a Terra tem, no máximo milhares de anos, não bilhões. Aqui no blog tenho algumas delas.

    Entendo como funciona a ciência. Só não entendo o que a comunidade científica faz hoje. O “crivo” dessa comunidade está “cravado” (com o perdão do trocadilho) no naturalismo filosófico, e não quer soltá-lo. Explicações alternativas simplesmente não são aceitas. Contudo, veja o crescimento do Design Inteligente: mais e mais pessoas têm desacreditado da teoria tradicional de origem da vida. E os teóricos do TDI não são criacionistas. Aliás, muitos deles ateus, ou agnósticos.

    Surgimos por acaso ou fomos projetados? Essa é uma pergunta simples, que só tem duas possibilidades. Sim ou não. Se sim, temos uma origem natural. Mas não podemos testar isso. Então, adotá-la é saírmos do que é científico, pois não é empírico. Agora, só porque a outra resposta sugere que há um Designer que pode não ser natural (o que também não pode ser testado), isso tem que ser descartado? Se sim, isso é um naturalismo filosófico, não científico. É um conceito, até uma crença. Porém, se fomos projetados, isso implica em um Designer. E essa explicação é naturalista, porque tem uma causa e um efeito. Quem é o Designer? Não sabemos, a ciência não pode responder essa questão no momento (creio que nem futuramente), e essa é uma questão filosófica.

    Ensinar boa ciência aos meus alunos é ensiná-la com honestidade. Se a teoria não explica bem, preciso por alguma outra no lugar dela – que deve ser naturalista; agora, sobre as origens, empírica não será. Assim sendo, porque deve ser filosoficamente naturalista?

    Um grande abraço, Prof.

    Daniel.

    P.S. Aceito seu conselho com prazer, Prof. Já estou procurando literatura de Ian Hacking. Qual obra dele o Sr. indica? Assim que acabar Thomas Kuhn, pretendo começá-lo. Não sabia que o conceito de demarcação de Popper foi posto de lado! Mas algumas comunidades de evolucionistas no Orkut também não sabem disso…

  9. A resposta do Charbel. Vamos ver se vai de uma vez só…

    Vc pode mandar esta resposta ao Daniel:
    “Prezado Daniel,

    Em sua resposta, vejo grande número de confusões epistemológicas. Infelizmente, tomado como está meu tempo com os projetos de pesquisa aqui do grupo, é difícil usar essa via do blog para discutirmos. Ao vivo, seria mais fácil discutir esses assuntos, como tenho feito com um bom amigo adventista, que, felizmente, mantém bem distintas ciência e religião. Afirmo, contudo, que seus argumentos não me convencem em nada. E continuo considerando que tentar formular criacionismo em termos científicos é má ciência, tanto quanto, ao que me parece, má religião. Você se pergunta se uma hipótese que menciona Deus não seria naturalista. Obviamente que não, Deus não é uma entidade natural. Deve ser até heresia considerar Deus natural. E se fosse natural, o que seria: O universo como um todo? Se fosse isso, por que chamar de Deus? Eu me ateria apenas, por economia ontológica a chamar de “universo como um todo”. Note que mencionar evidências de que a Terra é mais nova do que 4.5 bilhões de anos, sem mencionar Deus, não seria em absoluto evidência de criação. Seria evidência de que haveria algo errado com os modelos atuais sobre origem do sistema solar. Só isso. E nada mais do que isso. Para ser uma hipótese de criação, teria de mencionar algum criador, e, ao fazê-la, viria compromisso com modelos não naturalistas, logo, não testáveis. Mas nem se anime, porque estas não são evidências aceitas pela maioria da comunidade científica. E desde Popper, já ficou claro que não se faz ciência meramente mencionando dados. Faz-se ciência com evidências que são, elas próprias, construídas por uma comunidade científica e aceita por elas. Ou seja, evidências não mostram como o mundo é, são também peças argumentativas que são criticadas e, somente após crítica, são aceitas por uma comunidade científica. Não se faz ciência com quaisquer evidências, se faz com evidências que passam pelo crivo da comunidade científica. E estas apontam, sim, com bom grau de confiança, que a Terra existe há 4.5 bilhões de anos, a vida, há 3,5-3,8 bilhões de anos. Se ensina outra coisa a seus alunos,sinto dizer que não está ensinando ciência de qualidade a eles… Por fim, faz tempo que o critério de demarcação de Popper foi posto de lado… Se conselho eu pudesse dar, eu indicaria mais estudo sobre filosofia da ciência, em particular, autores mais recentes, como Ian Hacking, por exemplo. E cuidado, cautela, devemos estudar com a mente bem organizada, ou terminaremos sempre confusos….

    Abs
    Charbel

  10. Cara Mônica,

    Muito obrigado por repassar a resposta do Prof. Charbel. Respondo abaixo.

    Caro Prof. Charbel,

    Estou honrado com sua participação neste blog. Sinceramente, não esperava tamanha repercussão deste post. Sequer esperava que o Sr. se dispusesse a conversar com este mero estudante sobre isso. Mais uma vez, obrigado pela visita. Isso me anima e me alegra muito. Mas vou responder seu comentário sinceramente.

    O naturalismo e o empirismo, de fato, constituem a essência daquilo que definimos como científico e são o escopo do trabalho do professor de ciências. É nisso e com isso que ele deve, exclusivamente, trabalhar. Esse é o Primeiro Mandamento das Tábuas da Lei do Ensino de Ciências – e não deve ser transgredido. Defendo isso com unhas e dentes, Prof. Mas não entendo porque o criacionismo “não observa os requisitos naturalistas e empiristas” e o evolucionismo não. Só porque um acaba implicando em Deus e o outro não?

    Quando ensino aos meus alunos que há fortes evidências de que a Terra tem 4,5 bilhões de anos, por que não posso dizer que há evidências igualmente fortes de que ela é mais jovem que isso (como os radiohalos de Po, anéis de Saturno etc)? Ora, isso não é sair do naturalista e empírico. É apenas apontar ao aluno que há outras explicações. E não preciso, de forma alguma falar em Deus aqui. Mesmo assim, já estou falando de criacionismo.

    E sobre a origem do DNA? Como professor, seria honesto dizer aos meus alunos que ele surgiu casualmente, quando essa explicação insuficiente se estudarmos as informações que ele possui, e como ele tem significado? Aqui já estou falando de Design Inteligente.

    Quando falo de seleção natural, por que não posso dizer que é um mecanismo ineficiente para originar filos e classes uns dos outros? Pelo menos, isso nunca se observou, sequer em bactérias. Note que estou falando em termos naturais! Não estou sequer falando em Deus (ou deus).

    Acho conveniente citar uma pesquisa do site , que é o site da Creation Research Society:

    “Tem sido dito, e cremos que acertadamente, que a macroevolução é muito plástica para ser qualificada como teoria ‘científica’. Teorias científicas deveriam ser falseáveis, mas a teoria da evolução é facilmente adaptada para se acomodar a quase qualquer resultado, deixando-a a salvo de refutações. O renomado filósofo da ciência, Karl Popper, defendeu que a evolução não é um teoria científica, mas, ao invés disso, é uma proposição metafísica, porque não pode ser sujeita à falsificação. Sua principal filosofia, chamada “Falsificacionsimo”, é a ideia de que “a ciência avança por suposições exageradas e injustificadas, seguida de críticas abundantes” (Karl Popper web, 2006). Popper reconheceu que teorias não-falseáveis, como a evolução, são de algum modo “como os programas de computadores sem opção de desinstalação que apenas entopem a preciosa memória do computador” (Karl Popper Web, 2006). Nós concordamos com a avaliação de Popper, e é nossa opinião pessoal que o modelo criacionista é, da mesma forma, “não-falseável”. Portanto, evolução e criação deveriam ser, ambas, classificadas como “modelos das origens” e não como teorias científicas (Armitage e Howe, 2004, pp. 250-251). Isso não é bem compreendido ou praticado por muitos cientistas de visão evolucionista e por muitos dos juízes que têm presidido as cortes de casos evolução versus criação ao longo dos anos. Infelizmente, essas pessoas têm tratado a evolução como ciência pura enquanto caracterizam a criação como totalmente “religiosa”. (1)

    Confesso que não li Popper ainda, mas conheço algo de sua filosofia. E, de acordo com Popper (conforme esse texto), nenhuma das duas entra na classificação de “ciência falseável”. Afinal de contas, Prof., como a origem da vida pode ser testável? Os experimentos de Urey, Miller e outros pressupõem as condições necessárias para uma hipotética origem da vida que teria ocorrido de forma casual e naturalista. Mas até mesmo Francis Crick, em seu livro “Vida: sua origem e mistérios” argumenta que, por causa da complexidade da vida, ela não poderia ter surgido casualmente – e então ele apela à panspermia dirigida, o que também “não observa os requisitos naturalistas e empiristas”. Afinal, ele diz no livro “vamos dar asas à nossa imaginação”! Como testar a transição entre anfíbios e répteis? Isso não pode ser testado, pois não acontece atualmente – já teria acontecido, no passado, e não é empírico, embora seja uma explicação natural.

    Porém, sobre a validade deste debate, sinceramente, o Sr. está errado, Prof. Ele é importantíssimo. Em toda a minha trajetória por ele, desde a faculdade até hoje, mudei de lado várias vezes, reorganizei pensamentos; entendi que a seleção natural é um fato; reconheci que surgem novas espécies; entendi melhor a Bíblia e o Cristianismo. Não se trata de conversão ou catequização, mas de honestidade com a própria consciência. O Sr. acredita que Deus não existe. Mas e se Ele existir? (Isso é mais agnóstico que ateu, mas vá lá..) Inversamente, perguntando a mim mesmo: e se Deus não existir? Bem, se eu estiver errado, então quando eu morrer, não vai fazer diferença nenhuma, certo? Vou ser reaproveitado no ciclo energético do planeta. Mas se o Sr. estiver errado, está com sérios problemas diante de Deus. Com certeza, já deve ter ouvido isso (é um argumento de Blaise Pascal), e gostaria muito de convencê-lo, mas não posso (meu sistema de fé diz que não sou eu quem faz isso). Sou contra o proselitismo, em todas as suas formas. Mas por que seria contra a evangelização, se sei que, como cristão, o Evangelho melhora a vida das pessoas, e lhes dá paz? De outra perspectiva, isso é negar ajuda ao necessitado.

    Foi um grande prazer recebê-lo aqui, Prof. Charbel. Agradeço imensamente as palavras aqui deixadas e peço que continue visitando e escrevendo com toda a clareza que possui. Realmente, uma satisfação!

    Abraço e Deus abençoe,

    Daniel.

    Referências

    (1) ARMITAGE, Mark H.; HOWE, George F. The ultrastructure of lichen cells supports creation, not macroeolution. Creation Research Society Quarterly, v. 44, n.1, Verão 2007. p. 40-52. Disponível em: <http://www.creationresearch.org/crsq/articles/44/44_1/Lichens.htm>. Acesso em: 26 maio 2009.

    P.S.1 Não é sinal de fragilidade de fé buscar bases científicas para o criacionismo. É simplesmente honestidade acadêmica. Falando em termos cristãos, fragilidade de fé é ignorar o que a Palavra de Deus diz em prol de evidências a favor de um modelo humano (portanto falho).

    P.S.2 É absurdo tentar mostrar que Deus é uma entidade natural. Deus é espírito, como lemos em João 4. Mas, em nenhum momento, o criacionismo se presta ou se prestou a isso.

  11. continuando o que o Charbel pediu para postar – agora sei pq ele não conseguiu, a mensagem era longa demais.

    Por fim, um bom debate requer que se observe os termos dos argumentos dos oponentes. E sinto que meus argumentos não estão bem representados no que vc escreveu. Além disso, será que vale a pena mesmo esse debate todo? Chaïm Perelman, em sua nova retórica, argumenta que um debate só vale a pena se os debatedores estão dispostos a negociar seus pontos de vista. Até que ponto um teísta estaria disposto a negociar seus pontos de vista? Ou um ateu? eu sempre acho esses debates uma perda de tempo…. não se ganha coisa alguma debatendo crenças fundamentais… o que vale a pena é debater as distinções, demarcações e lócus de reconstrução dos discursos socialmente instituídos. Essa é a natureza de meu argumento. Sou ateu, mas não estou nem um pouco interessado em argumentar a favor do ateísmo, ou de converter os outros aos ateísmos. É tempo do ser humano desistir das propostas de conversão e catequização, que não são mais do que violência simbólica. Cada qual segue seu caminho e constrói suas crenças e o que a educação deveria assegurar é a boa compreensão dos diversos modos humanos de entender o mundo, científicos, das diversas religiões etc. Cada modo humano de entender o mundo em seu lócus de reconstrução. Na educação religiosa, as religiões, no ensino de ciências, as ciências, cada qual com o interesse e a motivação de levar às pessoas a compreender esses diferentes pontos de vista, de modo que pudessem optar criticamente por uma delas, ou por mais de uma (com as devidas distinções), em vez de acreditar em idéias apenas por argumentos de autoridade. Esta é minha concepção de educação libertária, em que a compreensão é o foco e a distinção entre os discursos é crucial para a compreensão. Da minha perspectiva, criacionismo científico, design inteligente prejudicam este objetivo e, por isso, se eu pudesse, seriam postos de lado… Mas o mesmo eu diria de cruzadas cientificistas, como a de Richard Dawkins… Todas essas perspectivas são abominadas por mim, porque não libertam os seres humanos, apenas os aprisionam numa confusão sem fim….

    Att
    Prof. Charbel El-Hani
    Instituto de Biologia/UFBA

    Qualquer dúvida sobre a veracidade das postagens pode se dirigir ao mesmo: charbel@ufba.br

  12. Mônica
    Vc pode mandar a mensagem abaixo para mim no blog de Daniel:

    Prezado Daniel,

    Seus argumentos não são compatíveis com o que defendi em meu texto da Folha. Meu argumento central é que naturalismo e empirismo são fundamentos ontológicos e epistemológicos de um discurso que possa ser qualificado como científico e, logo, somente discursos que observem estes fundamentos são admitidos como objeto de ensino na sala de aula de ciências, embora se possa, claro, discutir outros discursos, caso os estudantes os tragam à baila, mas eles não podem ser tomados como objetivos de ensino. O criacionismo NÃO é um discurso científico, porque não observa os requisitos naturalistas e empiristas. Divindades não são entidades naturais e, a seu respeito, não se pode fazer testes empíricos. As bases da fé são de outra ordem. Está sobre os ombros de vocês, criacionistas, formular um argumento convincente de que teses criacionistas são naturalistas e empíricas. Até o momento, não conheço qualquer argumento convincente a este respeito e olhe que procuro lê-los. Além disso, mostrar que Deus é uma entidade natural não seria uma heresia? Penso que a busca de bases científicas para o criacionismo (tarefa impossível, porque autocontraditória, em meu entendimento) é evidência de fragilidade da fé… Note, ainda, que o discurso científico não é ateu, ele é agnóstico, suspende o juízo sobre entidades não-testáveis, incluindo Deus. O ateísmo é uma crença pessoal, assim como o teísmo. Um cientista pode ser ateu (ou teísta), mas ao apresentar esta sua visão, não está falando nos termos do discurso científico, de caráter intersubjetivo, mas nos termos de uma crença, de um discurso pessoal. Isso significa que um professor de ciências não deve defender, em sala, nem visões teístas, nem visões atéias, isso seria proselitismo, sério problema de ordem ética.Mas ele deve ensinar, sendo professor de CIÊNCIAS, as idéias que são aceitas pela ciência, e esta explica a origem da diversidade das espécies, das adaptações, da vida etc. em termos naturalistas e testáveis. Se um professor ensina outras idéias, não está ensinando ciências, e deveria repensar sua profissão. Para fazer uma reductio ad absurdum do argumento de que se deve ensinar visões criacionistas na aula de ciências, considere apenas que, em sendo correto este argumento, seria correto defender que se deveria ensinar evolução nos cultos cristãos… Ora, as duas propostas são absurdos. A cada discurso, seus modos de reprodução. Misturá-los só confundirá as pessoas… E olha que elas andam mesmo bem confusas… uma tristeza…

    (parte 1)

  13. Cara Mônica,

    Que bom falar novamente com você. Fiquei lisonjeado em saber que o Prof. Charbel veio me visitar. Não recebi nenhum comentário dele, senão tinha aprovado na hora. Será uma honra tê-lo aqui.

    Concordo com tudo o que você disse, Mônica. Tenho também um amigo ateu, e conversamos livremente sobre esses assuntos. Nossa fé não interfere em nossa amizade. Mas são cosmovisões importantíssimas – as mais importantes, pois a existência de um Deus Criador, ou deus, implica em obrigações para com Ele, ou ele. E, se isso é verdade (assunto no qual a ciência não toca), então estamos ferrados ou não, dependendo de como reagimos a esse Deus (ou deus).

    Porém, sua preocupação é legítima. Como ensinar criacionismo se existem milhares de religiões, todas (possivelmente) com relatos de criação e Criador? Eu sou cristão protestante, e também não conheço todas as religiões. Mas ensinar criacionismo não é abordar religião. O criacionismo, bem como o Design Inteligente (que são diferentes) tratam de explicações científicas para a origem das coisas que vemos. Evidentemente têm implicações e pressupostos religiosos. Mas isso não é problema. O evolucionismo também tem.

    Creio que será conveniente expor o que sei sobre criacionismo e Design Inteligente. Esqueça aquele fixismo da época de Darwin, pois o criacionismo tem se desenvolvido bastante. Ainda não há uma definição de “criacionismo”, mas posso dizer o seguinte: ao ensinar criacionismo, ensinamos seleção natural, especiação, mutações, isolamento reprodutivo, isolamento geográfico etc. Só não concordamos em ensinar como fato que os filos surgiram uns dos outros, por acaso. De outro modo, as características estonteantes do DNA e seu conteúdo semântico, sua capacidade de correção de erros etc, não podem ter surgido casualmente, pois informação é oriunda de inteligência.

    Até aqui sequer citei “Deus”. Estou falando de fatos científicos e suas interpretações naturais. Porém, atribuir o surgimento da vida a forças do acaso ou a Deus é questão de fé. E com isso o professor de ciências não se envolve. O Estado é laico, certo? Não é pró nem contra Deus.

    Uma boa aula de ciências, acredito, seria, por exemplo, falar sobre a idade da Terra. A Terra tem cerca de 4,5 bilhões de anos, de acordo com a datação tradicional, e há tais e tais evidências que corroboram essa explicação. Porém, sabe-se que a Lua se afasta da Terra tantos centímetros por ano. E, se fizermos uma relação entre sua distância e a taxa de afastamento, veremos que 4,5 bilhões é muito tempo. Essa evidência é fortíssima contra essa idade longa.

    Ou então, acredita-se que os répteis deram origem a aves e mamíferos. As evidências são tais. Porém, tais e tais evidências falam contra isso. Veja por exemplo, a complexidade irredutível deste organismo. De qualquer modo, a teoria mais aceita é essa.

    Como uma molécula como o DNA pode ter surgido? A explicação mais aceita diz que foi por acaso e tal; todavia, é importante perceber que o DNA tem significado, e não se conhece nenhum tipo de informação que surja por acaso. Todas veem de uma inteligência. Que inteligência produziu o DNA? Isso é intrigante, não?

    Nos três exemplos, Mônica, falei de evolucionismo, criacionismo e Design Inteligente. E, como você viu, nenhuma religião esteve envolvida na questão. Só Ciência e Lógica. Como professores de ciências, fomos preparados para isso. É nosso dever nos atualizar para benefício dos nossos alunos. Amamos o que fazemos, por isso estamos na sala de aula, mesmo ganhando pouco e nos submetendo a coisas que “até Deus duvida”. Mas, fazer o que? Gostamos disso!

    Recentemente estive em um congresso de criacionistas. Uma das questões exploradas foi essa. O criacionismo dever ser ensinado nas escolas públicas? A resposta foi: “Sim, mas ainda não”. Não há professores preparados para ensinar desse jeito que eu falei. Reconheço isso. Mas é dever de cada professor, teísta ou ateísta, conhecer os dois lados da moeda. Quem mais tem o privilégio de ensinar tão profundamente os alunos? Os professores de Português, Matemática, Inglês, Educação Física, História e Geografia têm outras preocupações. Origem da vida é com o professor de Ciências e Biologia. Considero isso um privilégio e uma honra. E doutrinar meu aluno a uma das duas cosmovisões é um pecado.

    A obrigação do professor é ensinar o aluno a aprender e desenvolver um pensamento crítico sobre a realidade. Isso não exclui Deus (que é diferente de religião). Preparamos o aluno para a faculdade, para a qual ele pode se ferrar ou não; preparamos o aluno para o mercado de trabalho, para o qual ele pode se ferrar ou não; também o preparamos para a vida, para a qual ele pode se ferrar ou não. Se aquele comentário que fiz no início for verdade, isto é, Deus existe e prestaremos contas com Ele, não é conveniente fornecermos, honestamente, as evidências naturais que implicam nisso, para o que ele pode se ferrar ou não? Veja que, como exemplifiquei acima, não preciso necessariamente envolver Deus para que o aluno pense nele. A própria Bíblia reconhece isso em Romanos 1:18-20! Mas, como professor, se o aluno sair da aula “considerando a possibilidade” de ter sido criado ou de ser um acidente, então estou realizado. Porque Ciência é isso: sondar as possíveis explicações de um fenômeno, e ficar com a mais provavelmente verdadeira. Se o aluno concluir que o ateísmo é verdadeiro, quem fez o trabalho foi ele, não eu.

    Desculpe por responder tão demoradamente, mas o assunto exige um esforço grande.

    Um grande abraço, e Deus abençoe.

    Daniel.

    P.S. Volte sempre e mande meus abraços ao professor Charbel.

  14. Daniel,

    Disse ao Charbel sobre sua interpretação. Ele me disse que tentou postar aqui e não conseguiu.

    Quando perguntei, foi por que ele mesmo me disse que não concorda. Charbel é meu amigo a alguns anos, por isso sei o que ele pensa sobre o tema.

    Também não interfere na nossa amizade o fato de eu acreditar em deus e ele não. Respeitamos o direito do outro.

    Por isso digo, como ele sou contra o ensino criacionista em minhas aulas de ciências. Por um simples motivo – não saberia falar de como TODAS as religiões entendem a criação do mundo – nem conheço 1/5 delas. Ou a proposta seria de se ensinar o criacionismo bíblico? E meus alunos budistas, ficam como?
    Sou terminantemente contra qualquer forma de exclusão. Por isso meus alunos podem falar de como sua religião entende o assunto, mas sabem que não vou ensinar isso.
    Não tenho conhecimento suficiente de todas as religiões para tratar do tema.
    Como professora de Ciências e Biologia, vou me ater ao ensino de temas para os quais fui preparada.
    Nem me passa pela cabeça, por exemplo, dar aulas de História, pois não fui preparada para isso. Posso dar o enfoque histórico da ciência – e faço, mas não como foco do meu trabalho.
    Do mesmo modo embora deixe os alunos falarem de suas religiões, deixo claro que não é foco central da minha disciplina e explico que um professor formado em Teologia poderia fazer isso, eu não.
    Espero que o Charbel consiga postar o comentário dele aqui.

    Acredito que seria muito interessante.
    Abraços

  15. Cara Mônica,

    Obrigado pela visita e participação.

    Se o Prof. Charbel conhece a interpretação que fiz do seu texto não sei. Mas que é uma interpretação válida é. Fiz questão, Mônica, de citar quatro parágrafos, para não citá-lo fora do seu contexto. Reconheço, porém, que faltou dizer que ele é contra o ensino do criacionismo nas escolas públicas. Porém, isso não interfere no uso que fiz da citação. Pelo contrário, acho que só a reforça.

    Charbel é defensor do ensino de ciências. E, como defendemos que o criacionismo fala de conhecimento científico (ciências), o argumento de Charbel o valida como ensinável. O que acontece é que os evolucionistas não entendem (por falta de conhecimento e preconceito) que o criacionismo fala de ciências, por isso não querem vê-lo sendo ensinado também.

    Defendo, como acredito ter deixado claro no post, que ambas as visões devem ser ensinadas na escola, com o intuito de promover o debate e o aprendizado. Sou contra a doutrinação ateísta feita pela nossa sociedade. O Estado é laico – não ateu. Veja o início da Constituição de 1988: “Nós, representantes do povo brasileiro, (…) promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte constituição (…)” (CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL. 1988. Preâmbulo. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/sf00007a.pdf>. Acesso em 25 mai 2009. Grifo nosso.)

    Um abraço e Deus abençoe. E volte sempre.

    Daniel.

  16. Gostaria de saber se o Professor Charbel tem conhecimento dessa interpretação do que ele disse na reportagem. Pelo que sei ele não concorda com isso.

  17. Gostaria de saber se o Professor Charbel tem conhecimento dessa interpretação das palavras dele. Pelo que sei ele não concorda cm o ensino de criacionismo em escolas.

  18. Caro Marco,

    Agradeço sua participação. É sempre bom ter alguém que discorda da gente, e ser desafiado. Vou responder o seu comentário abaixo.

    A Bíblia, de fato, não é livro de Ciências, nem evidência para Ciência. É ridículo tentar reproduzir a transformação do cajado de Moisés em serpente; ou a transformação da água em vinho. Porque são milagres – intervenções divinas na realidade humana. São origem e consequência da fé das pessoas.

    Essas coisas não são verificáveis – mas nem por isso impossíveis. Tomá-las como impossíveis é uma afirmação religiosa, no mesmo nível de “Deus criou o mundo”. Só é antagônica, oposta.

    O criacionismo cristão parte da seguinte questão: “A Bíblia é a Palavra de Deus, infalível, inerrante. LOGO, suas afirmações devem ser verdadeiras.” Tudo isso é questão de fé. Se a Bíblia é verdadeira, esperamos encontrar evidências que ilustrem e expliquem o relato de Gênesis. Por isso, não quer provar se sua fé é verdadeira, mas sim entender como a vida se diversificou após a criação. Sabemos sua origem, mas não os caminhos que percorreu até hoje, por causa das mutações, seleção natural, ilosamentos geográficos, catástrofes, extinções, etc.

    Ninguém discorda que a Ciência não prova Deus. Nem pode se dispor a isso. Mas não é essa a intenção do criacionismo. Mais uma vez, ele se preocupa em como a vida começou na Terra. Como a evolução pode pressupor ateísmo, o criacionismo pressupõe teísmo.

    Usando suas palavras em favor do criacionismo, ele “explica a origem da diversidade atual da vida através de um processo material … com diversas evidências em favor”. Omiti a palavra “mensurável” de propósito. Como, Marco, em nome dos céus, a evolução é “mensurável”? Pode-se medir a transformação de uma espécie em outra? É claro que não. Você não tem parâmetros para isso. Como você mede a evolução de dinossauros para aves? Ou, da mesma forma, como você mede atos criativos de Deus? Como você mede a evolução de poríferos em seres humanos? Você até consegue saber taxas de mutações no DNA, mas quando compara dois organismos distintos, supostamente próximos, como chimpanzés e humanos, não tem nenhuma prova de que são relacionados. Tem dados percentuais de semelhança, que não necessariamente significa origem de um mesmo ancestral. Para ligar as duas peças do quebra-cabeça, usa-se a peça disponível, a evolução, recortando suas beiradinhas até que consiga formar a imagem que se quer ver.

    Não nego que há evidências muito boas a favor da evolução, como a ordem existente no registro fóssil. Mas também há evidências muito boas a favor do criacionismo, como a existência dos radiohalos de polônio em rochas ígneas, os animais considerados “becos-sem-saída evolutivos” e outras. Por que eu deveria privar meus alunos dessas evidências contrárias às apresentadas nos livros didáticos? Só porque elas levarão à palavra “Deus”? Quer dizer que, então, devo ensinar com base no ateísmo? Ora, mas isso também é religioso! Que laicicidade é essa?

    Os alunos têm o direito de saber que o modelo mais aceito é questionável e não responde todas as questões.

    É ridículo comparar o criacionismo à astrologia por causa disso. A astrologia é a própria “religião” (se podemos considerá-la religião. Mas é melhor dizer “superstição”). O criacionismo não é religião. Parte dela como a evolução parte do ateísmo. Não se pode ensinar cristianismo ou judaísmo nas aulas de Ciências, nem Astrologia. Mas uma explicação alternativa ao modelo atual, baseado em evidências, opa, por que não?

    Que fique claro, Marco, nem criacionismo nem evolução são ciência. Não podem ser medidos, observados, testados, reproduzidos. Por isso, ficam no campo das idéias.

    Agora, cuidado ao separar a ciência da religião. A religião verdadeira não é desmentida pela ciência. Se for, não é verdade, nem poderá salvar você. É só ilusão.

    Quem tem certeza de que está no caminho certo para Deus não se preocupa em prová-lo, mas fica feliz em estudar as provas que aparecem no meio do caminho, e saber que está no caminho certo.

    Um abraço, e Deus abençoe,

    Daniel.

    P.S. O design inteligente não é uma explicação religiosa, embora suas implicações possam levar a Deus. E é diferente do criacionismo, porque não parte da Bíblia e de nenhum outro livro religioso, mas da “complexidade irredutível” dos organismos.

  19. Astrologia também deveria ser ensinada nas escolas.
    Parece absurdo mas seguindo a linha de raciocínio dese próprio post isso deveria ser verdade.
    Explico: a teoria de evolução é embasada nos mesmos principios que regem toda a ciência humana. Ela pode e deve ser confrontada quando houverem evidências factuais para tal, sendo que a principal característica da ciência é ser auto-crítica, mas isso não inclui opiniões em nenhuma hipótese. O fato de alguém achar que é de outra maneira, para ser considerado como idéia alternativa, tem de ser embasado por EVIDÊNCIAS.
    E não, a bíblia (assim como qualquer outro livro doutrinário ou religioso) não é considerado evidência. Nenhum cientista tentou propor uma maneira de identificar qual o mecanismo de trensformação de cajado em serpente apenas porque uma passagem bíblica citava o fato.
    Esses livros são textos religiosos: ensinam doutrinas, e não podem portanto ser considerados como evidências científicas.
    Entretanto se chegamos a considerar que porque a visão religiosa dos alunos presentes à aula pode ser contraposta pela teoria de evolução, ou que design inteligente (teoria de fundo religioso não aceita como ciência justamente por ter que incorporar o sobrenatural como parte da explicação) deva ser adotado como prática complementar de ensino na disciplina de ciências, então astrologia deveria ser ensinada como contraposto a análise combinatória e probabilidade em matemática.
    A astrologia se baseia em cálculos e para fazer previsões de maneira similar à probabilidade matemática, entretanto ela se vale de conceitos não provados cientificamente para incorporar nos cálculos a posição dos astros, e a influência deles na vida das pessoas. Percebemos claramente a semelhança: a explicação alternativa para eventos ocorre nos dois casos (evolução & criacionismo e astrologia & probabilidade), sendo que nos dois casos uma das alternativas se vale do sobrenatural como parte da explicação.
    Só quero deixar um último ponto bem claro: todos têm o direito a suas crenças pessoais e esse direito não deve ser proscrito ou ameaçado de maneira alguma. Mas a ciência não trata, nem deve tratar, de explicar fenômenos com embasamento sobrenatural. Ciência e fé são duas esferas diferentes da vida humana, que não devem se sborepôr.
    Pelo mesmo motivo que a bíblia não pode explicar o movimento de spin eletrônico, a ciência não pode testar a existência de Deus.
    A bíblia, por exemplo, explica a origem da Terra e da Vida com o moldar de um Ser sobrenatural supremo.
    A Evolução explica a origem da diversidade atual da vida através de um processo material, mensurável e com diversas evidências em favor.
    São duas maneiras de encarar o fato, mas que fique bem claro: uma delas é religião e a outra é ciência.

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