Resposta a artigo de Rafael Cunha do Blog de Ciência da Folha.com

Essa é a resposta ao artigo “Criacionismo, diz-me com quem andas”, de Rafael Garcia, publicado no Blog de Ciência, da Folha.com, em 13 de janeiro de 2012. Leia o post do Rafael aqui.

Caro Rafael,

Como aqui no site o espaço é pequeno, vou publicar meu comentário no meu blog (considereapossibilidade.wordpress.com), linkando seu texto. Tudo bem?

Deve ter sido interessante ver o que você viu nessa feira (ou talvez circo, eu diria). Sempre digo que o maior problema do cristianismo são muitos cristãos. Como direi que o principal problema do criacionismo são muitos criacionistas, e o mesmo para a teoria de evolução e um monte de outras coisas. Mas quero comentar algumas coisas que você disse.

Primeiro: sempre que surge o assunto de criacionismo aparece alguém falando de “lavagem cerebral” e um tipo de conspiração para tomar o poder e transformar o estado democrático em uma teocracia anti-científica. Embora alguns grupos queiram muito fazer isso, é mais simples (navalha-de-ocam) começarmos perguntando se a teoria está respondendo às dúvidas das pessoas, e se é por isso que elas a estão abandonando – é uma possibilidade, não? (Mas a lavagem cerebral certamente acontece, não posso negar). Há muitos cientistas que questionam alguns pontos da teoria, como Francis Crick, que afirma não ser possível que a vida tenha se originado por acaso (em seu livro “A Vida: Sua Origem e Mistérios”), e por isso defende a panspermia dirigida. É possível que, ao olhar para a teoria da evolução as pessoas achem-na fantástica demais. Dizer que todas as formas de vida surgiram de um ou mais ancestrais unicelulares procariontes e passaram a produzir a Internet depois de algum tempo soa como se estivéssemos forçando a barra…

Outra coisa: os criacionistas não escondem que a teoria da evolução seja compatível com a crença em Deus. Essa afirmação é absurda. Isso é totalmente possível, porém, é totalmente desnecessário e prejudicial, porque acaba-se criando um deus à imagem e semelhança do crente. A verdade é que os criacionistas, embora digam que isso é possível, não tentam fazê-lo, porque qualquer leitura atenta e honesta do texto bíblico exclui a possibilidade hermenêutica de síntese entre as duas crenças. Nem o próprio Darwin quis fazer essa síntese! Essa “síntese” (ou frankensteinização, eu diria) estupra tanto o texto bíblico como a teoria da evolução, forçando-as a fazer o que não querem. Lembre-se que você está falando de cristãos, que discordam em muitas coisas. Uma delas é quanto à interpretação do texto bíblico. Essa interpretação mítica, que você apontou, está cada vez mais em decadência dentro das igrejas e escolas teológicas, justamente porque é uma leitura incoerente com o contexto teológico e bíblico. Afinal, se uma parte é mítica, porque o resto também não pode ser? Se o texto da origem do pecado é mítico, as argumentações de Paulo, Pedro e outros se esfacela, os evangelhos perdem a Teologia e Apocalipse, a importância. E assim podemos fazer qualquer coisa com o Novo Testamento, menos acreditar nele, pois perde totalmente o sentido. É isso o que o teólogo liberal está fazendo.

Outra coisa que você está forçando. A origem das espécies por meio da seleção natural de fato é uma das teorias mais sólidas e comprovadas da história da ciência. Verdade absoluta. Mas a origem química da vida e evolução de bactérias a seres humanos não é. Uma coisa é verificar a proximidade morfofisiológica entre fósseis ou entre genomas de organismos de um mesmo gênero, ordem e família, e dizer que podem ser aparentados, com base em algumas evidências (embora questionáveis). Outra bem diferente é dizer que eles surgiram de filos diferentes, e que todos os filos vieram de um procarionte ancestral, ou vários (o que não tem importância aqui neste argumento).

A teoria da evolução não é assim tão sólida, não, nem tão newtoniana como a gravidade ou como a relatividade de Einstein, ou como a estrutura e funcionamento do DNA.

Para terminar, vou citar você:

Não tenho a intenção de discutir aqui se as idéias defendidas em círculos ultra-reacionários americanos estão certas ou erradas. Só queria mostrar que é esse o pacote ideológico onde o criacionismo prosperou e se encontrou. Ele foi moldado para se encaixar ali. Acho justo que os simpatizantes desse movimento exportado para o Brasil saibam o que estão comprando.

Sejamos justos. Não é porque uma ideia prospera em círculos ultra-reacionários que isso vai diminuir sua importância, relevância ou, pelo menos, a necessidade de se olhar para ela com cuidado. Afinal, quando compraram a ideia de Darwin, ninguém esperava que Hitler fosse usá-la como usou. Ela a moldou para usá-la, mas isso não tira o mérito e importância da teoria. Para estender um pouco mais esse paralelo, é evidente que o evolucionismo prosperou em um pacote ideológico de ateísmo e antiteísmo. Esse pacote tira o sentido, esperança e valor da vida (minha e dos outros). É bom mesmo saber o que se compra. Olhe com mais cuidado o que o criacionismo e o design inteligente dizem realmente.

Um abraço,

Daniel Ruy Pereira.

PS: Só uma última coisa. Criacionismo não é pregação religiosa, quando bem estudado e defendido. A pregação religiosa procura converter. O criacionismo propõe que se discuta uma alternativa à ideia evolucionista. Não é honesto responder as dúvidas dos alunos, quando perguntam se não há alternativas à teoria da evolução? O papel do professor é dar ao estudante as várias ferramentas que têm à disposição, para que aperte o parafuso que melhor se encaixa. Agora, se o professor não tem as ferramentas, é melhor buscá-las, senão o aluno está perdido.

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Bactérias, vírus e o Dilúvio

Como vocês conseguiram, bactérias? Imagem wikipedia.org.

Como bactérias e vírus teriam sobrevivido ao Dilúvio? Essa pergunta não é tão difícil quanto os proponentes acham que é. Basta saber um pouco sobre a incrível capacidade de sobrevivência das bactérias para respondê-la.

Bactérias são as células mais “simples”, ou melhor, menos complexas da Biosfera. São compostas de uma parede celular, uma membrana plasmática, o citoplasma (uma mistura de água, íons e proteínas), DNA e RNA, basicamente. Células bacterianas são do tipo procarionte, porque não têm núcleo organizado. É interessante como tendemos a imaginar essas células como mais simples, apenas por não terem organelas revestidas de membranas – o que é um erro. As bactérias, embora menos complexas que as células com núcleo organizado (eucariontes), são altamente complexas, com máquinas e processos celulares que funcionam de forma intrincada e otimizada. É como dizermos que um avião bi-motor não se compara a um ônibus espacial – isso não faz o bi-motor uma máquina simples, apenas menos complexa que o ônibus espacial. O movimento dos flagelos ou o mecanismo de síntese de proteínas são irredutivelmente complexos, e não poderiam ter se originado por acaso (1). Vírus já são diferentes.

Vírus da gripe suína. Imagem de wikipedia.org.

Vírus da gripe suína. Imagem wikipedia.org.

Podemos nem considerá-los organismos vivos. Isso porque não possuem células – critério mínimo para ser considerado vivo – e só se reproduzem dentro de outras células. Ou seja, os vírus são parasitas intracelulares obrigatórios. Se formos considerar os vírus como seres vivos, então só podemos considerá-los assim quando estiverem dentro de outras células.

Além disso, as bactérias têm formas incríveis de sobreviver aos mais diversos ambientes. Uma dessas formas é a esporulação. Através deste processo, as bactérias se desidratam, aumentam a espessura de sua parede celular e, assim, conseguem sobreviver a temperaturas extremas, falta de água e exposição a vários tipos de substâncias tóxicas e radiação. (Quando passam por esse processo, a célula é chamada de endosporo.) Esse processo já está codificado no DNA das bactérias.

“… endosporos com 7.500 anos de Thermoactinomyces vulgaris do lodo congelado do lago Elk, no estado americano de Minnesota, germinaram quando reaquecidos e colocados em um meio nutriente. Foi relatado, também, que endosporos com idade entre 25 e 40 milhões de anos, encontrados no intestino de uma abelha sem ferrão, aprisionada em âmbar (resina de árvore endurecida) na República Dominicana, teriam germinado quando colocados em meio nutriente.” (2)

Além disso, bactérias podem sobreviver transferindo pequenas moléculas circulares de DNA chamadas plasmídeos uma para a outra. “Os plasmídeos podem transportar genes para atividades como resistência aos antibióticos, tolerância a metais tóxicos, produção de toxinas e síntese de enzimas.” (3) Estes são apenas dois exemplos da flexibilidade da sobrevivência dos organismos bacterianos, adaptados aos mais diversos ambientes da Terra.

As bactérias poderiam ter sobrevivido ao Dilúvio utilizando os processos de esporulação ou transferência horizontal. Os vírus teriam sobrevivido dentro de outras células. No entanto, é muito mais provável que ao invés de sobreviver tenham, mais que isso, proliferado, uma vez que havia grande quantidade de material orgânico a ser decomposto na água, e bactérias são decompositoras – o que é excelente, pois dentro de um ano todos os organismos que haviam morrido estavam decompostos, o que evitaria doenças quando Noé, sua família e os animais saíssem da Arca.

Antes do século XVII, a humanidade não fazia a menor ideia da existência das bactérias. Por isso, não tem sentido acharmos que Deus queria que Noé preservasse espécies de bactérias na Arca – embora elas estivessem lá, nos intestinos, pele e no alimento que os animais consumiam. Eventualmente, através da seleção natural, voltaram a se multiplicar e diverenciar em novas espécies. Porém, continuaram sendo bactérias – seres procariontes, parasitas ou não, que abundam em qualquer ambiente do planeta.

Referências

(1) Por exemplo, o DNA produz RNA que, indiretamente, produz proteínas, que são essenciais para que o DNA seja feito, se condense dentro do núcleo (de eucariontes), se duplique e produza RNA, que utilizará proteínas para produzir proteínas. Ou seja, sem proteínas não há DNA e sem DNA não há proteínas. Assim, um não pode ter surgido antes do outro. Ambos precisam ter surgido juntos. Para uma análise completa deste problema e dos flagelos bacterianos veja BEHE, Michael. A caixa preta de Darwin: o desafio da bioquímica à teoria da evolução. Rio de Janeiro: Zahar, 1997.

(2) TORTORA, Gerard J.; FUNKE, Berdell R.; CASE, Christine L. Microbiologia. 8. ed. Porto Alegre: Artmed, 2005. p. 94. As longas datas desta citação são baseadas em processos de datação radiométrica, que fornecem idades relativas. Para uma refutação deste processo veja TAYLOR, Steve; MCINTOSH, Andy; WALKER, Tas. O colapso do tempo geológico. Considere a possilidade, 27 março 2009. Disponível aqui.

(3) Ibid, p. 92. A conjugação é um tipo de transferência horizontal, quando uma bactéria adquire material genético de outra bactéria, do ambiente, ou através de vírus. Isso não leva a transformação de bactérias em protozoários. De acordo com Jerlströem, “essa transferência simplesmente envolve a partilha de genes já presentes nas bactérias, e não resulta no aparecimento de novas ou mais complexas informações genéticas. Quando as condições seletivas são removidas, a informação genética adquirida torna-se redundante e é, eventualmente, descartada pelas células, a fim de abilitá-las a sobreviver entre tipos selvagens de bactérias de crescimento mais rápido.” In: JERLSTRÖEM, Pierre. Is the evolutionary tree turning into a creationist orchard? Journal of Creation 14(2):11-13, agosto 2000. Disponível em: < http://creation.com/is-the-evolutionary-tree-changing-into-a-creationist-orchard>. Acesso em 02 janeiro 2012.

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Feliz 2012!

Queridos leitores,

Passei rapidinho no blog pra desejar um feliz ano novo pra todos vocês. Estou publicando pouco por dois motivos. 1. Fim de ano e fechamento das notas dos alunos. 2. Férias!

Por esse segundo motivo, só volto a postar em fevereiro. Mas isso não quer dizer que não estou pensando no blog. Tenho várias ideias e estou pensando nelas. A tradução do livro do Gary Bates também volta normalmente em fevereiro. Pelas minhas contas, em julho o livro está totalmente traduzido.

Então, aproveitem. Que Deus abençoe todos vocês em 2012.

Abraços,

Daniel.

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